
O Uso Recorde de Agrotóxicos no Brasil em 2024: Mito ou Realidade?
O Brasil registrou um número recorde de aprovações de agrotóxicos em 2024, reacendendo debates sobre a sustentabilidade do agronegócio e a segurança alimentar. Para compreender essa questão, é essencial separar mitos da realidade, analisando os dados de maneira técnica e fundamentada.
1. O Que Significa “Número Recorde” de Agrotóxicos?
A liberação de um número elevado de produtos fitossanitários não implica, necessariamente, um aumento do uso de agrotóxicos nas lavouras. O que ocorre é a entrada de novas moléculas, muitas delas mais eficientes e ambientalmente seguras, substituindo produtos antigos e mais tóxicos. Essa modernização do portfólio atende à demanda por soluções mais sustentáveis e eficazes no controle de pragas e doenças.
Além disso, um maior número de registros inclui genéricos de moléculas já aprovadas, promovendo concorrência e redução de custos para os produtores. No contexto de um país tropical, com alta biodiversidade e desafios fitossanitários constantes, o Brasil precisa de um arcabouço tecnológico robusto para garantir produtividade e competitividade global.
2. A Realidade do Uso de Defensivos no Brasil
O agronegócio brasileiro frequentemente é alvo de críticas sobre o suposto uso excessivo de agrotóxicos, mas poucos compreendem a complexidade do manejo fitossanitário em um país de dimensões continentais. O Brasil é o maior produtor mundial de grãos, fibras e proteínas vegetais, operando sob condições tropicais onde a pressão de pragas e doenças é significativamente maior do que em países de clima temperado.
Comparado a outras nações, o uso de defensivos no Brasil segue padrões similares. Dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) mostram que países como Japão e Holanda utilizam, proporcionalmente, mais agrotóxicos por hectare do que o Brasil. A grande diferença é que, devido à extensão territorial e ao volume de produção, o consumo total de defensivos agrícolas é elevado, mas isso não significa um uso desproporcional por área cultivada.
3. Segurança Alimentar e Sustentabilidade
Os defensivos agrícolas são fundamentais para a garantia da segurança alimentar, evitando perdas de produção que poderiam comprometer o abastecimento interno e as exportações. No entanto, isso não exclui a busca por práticas mais sustentáveis. O Brasil tem avançado significativamente na adoção do Manejo Integrado de Pragas (MIP), da biotecnologia e do uso de bioinsumos, reduzindo a dependência de químicos sintéticos.
A Embrapa e outras instituições de pesquisa têm investido no desenvolvimento de biofungicidas, bioinseticidas e novos métodos de controle biológico. O crescimento do mercado de biodefensivos no Brasil reforça esse movimento, demonstrando que a agricultura brasileira está se tornando cada vez mais sustentável e inovadora.
4. O Papel da Ciência e da Informação
É fundamental que a discussão sobre defensivos agrícolas seja embasada em ciência e não em narrativas ideológicas. A modernização dos insumos agrícolas deve ser vista como um avanço tecnológico e não como um retrocesso. Novas moléculas são testadas rigorosamente antes de sua liberação, seguindo protocolos internacionais de segurança para consumidores, produtores e meio ambiente.
Além disso, a sociedade precisa ter acesso a informações transparentes. A demonização dos agroquímicos sem um entendimento técnico do setor prejudica o debate e pode gerar insegurança alimentar, especialmente em um país que depende da agricultura para impulsionar sua economia e abastecer o mundo.
5. Conclusão
O recorde de registros de agrotóxicos em 2024 não deve ser interpretado de forma alarmista, mas como um reflexo da evolução do setor agropecuário. O Brasil continua avançando na busca por maior eficiência produtiva e sustentabilidade, com a introdução de defensivos mais modernos e seguros. Tudo isso vale, obviamente, para quem tem acesso, ao capital, tecnologia e inovação.
Entretanto, essa abundância de possibilidades ainda não chega aos milhares de pequenos produtores rurais do norte e nordeste, esses avanços tecnológicos e maior disponibilidade de defensivos mais modernos e seguros, não é uma realidade que se aplica de maneira uniforme a todos os segmentos da agricultura brasileira. Os Pequenos produtores enfrentam desafios distintos que dificultam o acesso a essas inovações.
Muitos agricultores familiares dessas regiões possuem limitações financeiras e logísticas, além de dificuldades no acesso à assistência técnica e ao crédito rural para a aquisição de insumos mais modernos. Em muitos casos, o uso de agrotóxicos ainda ocorre de maneira informal, sem o devido acompanhamento técnico, o que pode comprometer a segurança ambiental e a saúde dos produtores.
O crescimento do mercado de bioinsumos e práticas agroecológicas poderia beneficiar especialmente esses pequenos produtores, promovendo alternativas mais acessíveis e sustentáveis. O incentivo a políticas públicas voltadas à disseminação do manejo integrado de pragas, à capacitação técnica e ao fortalecimento da agricultura familiar é essencial para garantir que os avanços do agronegócio cheguem também a esses agricultores.
Nós do Polvo lab estamos trabalhando para unir, desenvolver e organizar o pequeno produtor rural em ecossistemas cooperativos para ganho de escala, acesso a capital e assistência técnica. Para nós, o cooperativismo não é apenas um modelo de gestão. É um modelo de vida. É sobre transformar produtores isolados em protagonistas de uma economia colaborativa. Cooperativas bem estruturadas dão poder de negociação, reduzem custos, promovem a troca de conhecimento e criam um senso de pertencimento que vai além do econômico: cria um tecido social resiliente.
Portanto, o avanço tecnológico na agricultura brasileira precisa ser acompanhado de estratégias que democratizem o acesso às inovações. Apenas assim será possível garantir um setor agropecuário verdadeiramente sustentável, produtivo e inclusivo para todas as realidades do campo.
Comments are closed